Esse blog morreu

July 6th, 2008

Então é isso.

Eu aviso por aqui se rolar algo novo em outro lugar.

O arquivo está todo aí para ser lido.

SUCESSO!

De volta à forma

April 29th, 2008

Dizem que eu defendo o indefensável. Mas alguém tem que fazê-lo, não?

Trabalho com muita gente que vem do meio acadêmico e teve uma formação de esquerda. Sempre discuto com vários. Já fui “acusado” de ser um direitista, com dedo na cara e tudo, em uma discussão de bar. Alguns colegas acham razoável que o governo banque empresas absolutamente incapazes de crescer por méritos próprios - empresas que agonizariam sem os tostões do governo. Muitos deles sequer enxergam que alguns pensamentos de esquerda são usados ao sabor do mercado, que só quer a mão do governo quando esse vai lhe fazer um afago. Mas alguns dos meus colegas estão muito certos de que o mercado é ruim e a burocracia é boa, mesmo sem jamais terem trabalhado no mercado. É uma assustadora ausência de cinzas na terra das certezas absolutas.

Também caí na terrível discussão sobre a pena de morte um tempo atrás. Todo mundo em uníssono: “Pena de morte não, a pessoa tem que pagar na cadeia”. Pensei que aquele era o momento em que eu entrava na discussão, pois tenho a leve impressão de que a pena de morte só valeria para pobre ferrado na vida. E então veio meu erro, pois me senti à vontade pra dar minha opinião pra valer: “Só que o Estado não tem o direito de matar, pois o Estado é todo mundo e ao mesmo tempo não é ninguém, mas os indivíduos têm. Se sujeito tem um filho morto, nada mais razoável do que ele matar o assassino do filho. Depois ele vai e cumpre pena, bacana, etc. Mas ele fez o certo”. Corta para a cara de horror de todos que almoçavam comigo. Tive que ouvir por dez minutos uma enxurrada de argumentos jurídicos, cristãos e humanistas. Nessas horas em que o olhar censor me diminui, não tenho dúvida: mando a frase aniquiladora. E a daquele dia foi “mas eu acho bem OK matar alguém. Eu mesmo não excluo a possibilidade de fazê-lo um dia”. Foi infantil, mas divertido. Naquele dia eu perdi umas duas ex-amizades que pouco me acrescentavam.

Para encerrar, uma rápida descrição do dia em que quase fui linchado. Já no sétimo ou oitavo chopp de uma sexta-feira entediante, eu disse que é difícil ter respeito pela maioria das mulheres que conheço, pois 90% delas aceitam o papel a que os homens querem relegá-las. Ressaltei que as 10% restantes, que não aceitam essa pequeneza, conquistam meu respeito como homem algum jamais conquistaria. E adiantou? Sem exagero algum, eu quase apanhei das mulheres presentes. E permaneço perplexo com essa defesa de todo um gênero, pois eu tenho certeza de que nós, homens, somos bem patéticos. Duvido que se salvem 10% de nós. E sigo respirando, botando em paz a minha cabeça no travesseiro, gozando essa vidona em que tem tanto bicho ruim solto.

Ah, como é bom ser negativo. Eu até já estava me esquecendo…

O Rio

April 14th, 2008

Vou me acostumando ao Rio. Indo ao bar, tropeço em baratas do tamanho de ratos e em ratos do tamanho de gatos. Algumas poças d’água amarelada no chão, que diacho de lugar é esse onde tem tanta água amarela na calçada? Desviam delas os homens fortes e barrigudos, bem como as mulheres musculosas e com a pele esturricada ao sol - que beleza é essa que eles perseguem? Passa pela minha cabeça que a minha doce Botucatu ainda está perdida no tempo, ela e seus filhos rechonchudos e branquelos.

Vejo um bar repleto de flamenguistas; que povo é esse que enche o bar para ver um Flamengo X Cardoso Moreira? Nem Palmeiras X São Paulo tá enchendo estádio lá do outro lado da Dutra. À parte seu excesssivo gosto pela malandragem em campo, encanta-me a paixão dos cariocas pelo futebol.

Partindo para uma festa no sábado à noite, entro em um táxi que tem DVD player. Ao invés de um Cidinho e Doca ou Cláudia Leite, ele exibe uma compilação de vídeos do Sisters Of Mercy. Desfilando pela enseada de Botafogo à meia-noite, a cabeça enfiada na janela, ouço Andrew Eldritch cantando coisas tão diversas daquilo que vejo. Estivesse eu passeando pela Bela Vista em direção ao Madame Satã, a cena não soaria tão bizarra.

E o vento de outono… acendo um cigarro sob o edifício Gustavo Capanema, pronto que estou para que o vento, cansado de destituir os galhos de suas folhas, venha cá me dar um abraço. Vale muito a pena estar no Rio durante o outono.

Um dia eu me acostumo. Segundo um amigo, posso levar até cinco anos. Mas eu vou, ah!, eu vou me acostumar.

Redação de terceira série

April 9th, 2008

Meus amigos estão habitando a região cinza dos 30, e volta e meia são assaltados por anseios que não pareceriam estranhos em um adolescente.

Meus amigos têm medo da solidão. Temem acordar e perceber que não há mais aquele peito onde repousar a cabeça. Têm medo do contato excessivo e continuado com seus affairs. Acham-se escaldados, mas vivem de rasteira em rasteira. Meus amigos têm medo de ficar sem dinheiro; um tem medo até de virar andarilho.

Uns poucos têm medo de não perceber que já não são mais garotos; outros têm medo de já ter morrido. Meus amigos já não aproveitam o vento como o faziam quando mais jovens; do vento, a maioria só se lembra quando passeiam por suas baias as grossas lufadas do ar condicionado central.

Meus amigos são castigados pela luz branca, que lhes rouba não só a cor, mas também o apetite, o tesão, o sangue nos olhos.

Desejo melhores dias - dias de segurança e regozijo - a todos os meus bons amigos.

Pequenos prazeres II - fazendo justiça

April 8th, 2008

Dia desses, o Renato escreveu um texto baseado em um post meu de um ano atrás. Quando eu voltei para ler meu histórico, fiquei assustado: aquilo era um derramamento injustificado de amargura. Eu discorria brevemente sobre coisas triviais que me faziam alegre, e no final fazia a ressalva de que não tinha mais nada daquilo.

Pois bem: eu sou um babaca. Só um grande idiota tem tanto e prefere perder seu tempo a lamentar pequenos fracassos. Venho, portanto, fazer justiça às coisas preciosas que abrilhantam a minha vida.

Saio esbaforido do trabalho por volta de sete da noite. No caminho para o ponto de ônibus, acendo o primeiro cigarrinho do dia - pequena recompensa por algum stress que possa ter me desgastado nas horas anteriores. Quando salto do ônibus, passo pelo supermercado e escolho algum pão para o café da manhã do dia seguinte. Pego algo que está em promoção - uma geléia dinamarquesa, um queijo brie ou um biscoito pelos quais eu jamais pagaria normalmente.

Chegando em casa, tudo está como eu deixei de manhã. Meu livro aberto sobre a cabeça do sofá; a rede pedindo para ser distendida pelo peso do meu corpo. Um copo de Ades de banana ou um copinho de licor. Outro cigarrinho para facilitar a leitura. Pronto, minha noite está feita.

Em um almoço qualquer durante a semana, lanço um olhar maroto sobre o cardápio e me permito comer algo bem gorduroso - veja bem, eu estou em um momento de saladinhas e grelhados, mas posso me permitir um entupimento de artérias de leve. Retorno ao trabalho e conto uma piadinha qualquer. As pessoas riem. Pronto, ganhei meu dia.

Os domingos? Quando a vida não me permite passar o dia de descanso com as minhas pernas enroscadas em outras, eu acordo tarde e vou tomar um frozen yogurt no Yogoberry. Na volta, cineminha em Botafogo. Se alguma alma se dispuser a tragar uns chopes comigo, uma paradinha rápida na Drinkeria Maldita. Um papo sobre a vida, risadas discretas ou gargalhadas incontidas. Pronto, ganhei a semana que está por começar.

A vida é simples e boa. E este é o auge.

O tempo voa

March 10th, 2008

Eu gosto de ter a idade que tenho. Sinto que já perdi um tanto do vigor que tinha há cinco anos, mas posso lidar com isso. Estou mais cínico, mas também sei me defender melhor. Encaro menos desafios e pequenas loucuras, mas sei que poderei pagar as contas que chegam todos os meses lá pelo dia 5.

Sinto-me muito velho, contudo em duas situações.

Gosto de rock. Por mais que eu me aventure pelos sambas e semelhantes, não tenho paciência para festas que só tocam música brasileira, soul, etc. Festas de rock são mais selvagens, mais pulsantes - a boa sensação de que somos jovens e existe muito ainda pela frente. O problema, é claro, é que a cada dia que passa eu sou menos jovem. Quando estou no meio da pista e olho ao redor, me vem uma idéia sinistra de que eu já tenho a alma velha demais para aquele lugar. Às vezes o pensamento vai logo embora; em algumas noites, contudo, a idéia me acompanha até o momento em que deito a cabeça no travesseiro - os baixos e baterias ainda reverberando na cabeça.

Outra situação que me esfrega na cara o avanço da idade é a obrigação de encarar novas tecnologias. Quando mais novo, eu era o esperto da informática a quem todos pediam favores: configurei dezenas de computadores para o acesso à internet entre 96 e 98; encontrava soluções (gambiarras) interessantes em meus empregos; ajudei muitas pessoas na escolha de seus mp3 players, notebooks, etc. Hoje, contudo, já me vejo confuso diante de algumas tecnologias. Há um ano luto constantemente contra uma rede wi-fi baseada em conexão a cabo do Virtua - Meu Deus, como eu apanho. Sinto que anos atrás eu encontraria soluções em 5 minutos, mas agora arranco os cabelos e a conexão vai sumindo, fraquinha, até me deixar na mão.

Eu poderia passar a freqüentar apenas sambas na Mangueira ou pagar de uma vez um serviço wi-fi mais caro e mais estável; sinto, contudo, que devo lutar contra minha inevitável obsolescência. Deverei isso a mim mesmo até o dia em que eu finalmente vestir o paletó de madeira.

Do mau jornalismo e da péssima publicidade

March 6th, 2008

Estamos em 2025. Estou olhando para a parede há alguns minutos; de repente, meu filho me cutuca.

Filho: Pai, meu professor de História me disse que vinte anos atrás existia uma revista ridícula de direita, que publicava futricas a torto e direito. Ele disse que os colunistas escreviam como se estivessem falando com crianças de cinco anos.

Eu: Não sei se diria que era de direita. Temo ofender a direita séria…

Filho: Mas era assim mesmo, velho?

Eu: Veja bem… antigamente a revista até parecia séria. Não sei se foi de repente, mas em certo momento notei que aquilo só servia como humor involuntário.

Filho: É verdade que uma vez eles fizeram uma propaganda em que diziam o que era certo e errado, como se fossem bastiões da moral?

Eu: É, filho. Eu nem acreditei quando vi. E eles tinham uma relação curiosa com um ministro do STF, o Joaquim Barbosa. Era uma puxação de saco que só vendo. Até botaram o sujeito naquele comercial de gosto duvidoso.

Filho: Posso ver, pai?

Eu: Não, filho. Felizmente, todos os governos - de direita e de esquerda - que vieram depois preferiram vetar aquela vídeo, que foi a única obra completamente censurada em vinte anos.

Dica de ouro: aproveitem que multidões ainda não encheram as ruas para pedir a censura a uma das peças publicitárias mais pobres da história da TV. Veja o vídeo abaixo e dê risada sozinho.

[UPDATE] - Notem que aos 28 segundos aparece uma mulher negra chorando. Ela pode estar chorando porque perdeu um bilhete premiado da loteria, porque quebrou seu copo preferido ou porque perdeu o namorado; para a Veja (e para sua agência de propaganda), contudo, ela deve ser uma mulher negra cujo marido traficante acaba de ser morto. Isso já não é ser politicamente incorreto; na minha terra, diríamos que isso é abjeto, estúpido, ESCROTO.

[video]http://www.youtube.com/watch?v=-IE_uv2Q3z4[/video]

A dor

March 5th, 2008

Eu tinha doze anos e estava desesperadamente apaixonado. Sim, tenho noção de que um garoto de doze anos não poderia saber o que é sentir algo tão intenso. No entanto, meus dias e noites eram tomados pelo sentimento de que eu deveria estar com aquela garota - que invariavelmente andava para lá e para cá com os garotos mais velhos do colégio.Eles, os maconheiros.

Nunca gostei dos drogadinhos do meu colégio. Não porque eles usavam drogas - principalmente uma tão leve. O que me incomodava era que todos forjavam suas personalidades nos discos do Doors e do Raul Seixas, botavam uma banca de maturidade simplesmente porque rodavam em suas vitrolas aquela quase-poesia tão pretensiosa. Eu não gostava deles. Me irritavam suas risadinhas, a falta de inteligência agravada pelo consumo excessivo de maconha, a tranqüilidade de saber que logo seriam maiores de idade e teriam acesso a luxos tão distantes para nós, os garotos da sexta série. Eu não gostava deles, mas isso nunca me afetaria tanto se aquela garota não tivesse cruzado o caminho deles.

Ela tinha a mesma idade que eu, morava em um sítio e não se relacionava com os colegas de sala. Eu a achava muito superior a quase tudo que nos cercava, vastamente superior à pequeneza que afetava as quase-crianças-quase-adolescentes de uma cidadezinha do interior. Ela parecia se bastar. Já eu, em início de luta contra as espinhas e os quilos a mais, só conseguia desviar meus olhos dos textos nos livros de geografia e ciências e pensar nela. Ela toda linda, o cabelo bagunçado, o rosto sem maquiagem - as garotas já começavam a brincar com tintas e sombras - e chamando para si todos os olhares, os quais esnobava com elegância.

Foram meses de tenebroso inverno. Não posso dizer que esnobei outras garotas por gostar dela, já que garota alguma queria ter comigo àquela altura. Meses em que eu ensaiava parar na frente dela e dizer o quanto eu queria apenas estar ao seu lado. Tamanho sofrimento teve seu auge quando, em uma amena conversa de sábado à tarde em uma chácara, um amigo me revelou que ela estava namorando um padeiro. Ele era mais velho e andava com os maconheiros. Na minha cabeça de garoto branco, católico, classe média e de inteligência mediana, aquilo não batia: o pouco que eu havia aprendido de lógica e os valores que eu havia absorvido até então jamais me permitiriam aventar a posssibilidade de uma garota como ela namorar um padeiro maconheiro. Um garoto mais velho e que fazia pães, que madrugava todos os dias para se meter no forno. Enquanto aguardava as fornadas, talvez ele fumasse alguns baseados e desse alguns malhos em alguma garota. Afinal, ele era mais velho. Consideravam-no cool. E ele estava tendo com aquela que deveria ser a minha garota. Ele era quadrilhões de vezes melhor do que eu.

Aquele foi o ponto em que assumi que precisava ter alguma atitude, qualquer que fosse. Eu precisava desnudar minhas intenções, trazê-las à luz para que minha desejada pudesse abraçá-las e aceitar ser feliz comigo para sempre. Quando eu levasse ao seu conhecimento todo o meu amor, ela instantaneamente se despojaria de qualquer afeto que a ligava ao padeiro maconheiro. Aquele padeiro! Com certeza os restos de farinha permeavam seu corpo, irritando o nariz e os olhos da minha musa. Eu apenas precisava me esforçar.

Foi em uma manhã de aula que eu pensei na melhor forma possível de me aproximar dela: eu lhe enviaria um bilhetinho com algum trecho de música. Algo que lhe permitisse enxergar a real dimensão do meu sentimento. Eu queria me derramar no papel, dirimir qualquer dúvida que ela pudesse ter sobre meus sentimentos. Contudo, eu ainda era um garoto de doze anos. E eu gostava de Black Sabbath. Se mais velho e esperto eu fosse, já saberia que Chico Buarque basta para conquistar quase toda mulher. Em último caso, é só mandar um Paulinho da Viola e elas ficam encantadas. Mas eu tinha doze anos e não conhecia muito mais do que o Black Sabbath.

Naquela tarde, sob as tabelas de basquete do pátio, eu lhe entreguei o bilhete. E foi aquela tarde a última vez em que meus olhos cruzaram com os dela.Não sei se ela não sabia ler em inglês; tampouco sei se ela pensou que eu era um gordinho espinhento e satanista. Apenas sei que naquele dia, assim como em outros que se seguiram, ela saiu do colégio e foi entregar ao padeiro o seu beijo mais carinhoso.

Esse foi um dos mais importantes eventos formadores do meu caráter.

Pérolas aos porcos

February 26th, 2008

Deve ser muito triste fazer um filme excelente e ter que ler críticas rasas sobre sua obra.

Sangue Negro foi o filme com mais indicações ao Oscar neste ano. Saldo: bastante destaque em jornais, muita babação de ovo e… o filme em poucos cinemas. Sim, uma dessas coisas comuns nesses tempos em que três filmes ocupam 80% das salas do Rio. Felizmente, consegui ir ver antes que tirem de cartaz.

Filmão. Paul Thomas Anderson segue excelente (só Magnolia foi um tropeço de leve) e conseguiu fazer o seu melhor aqui. Por sorte, eu não havia lido as críticas antes, o que me privou de conhecer pontos de vista que só fazem empobrecer obras - sejam livros, filmes, pinturas ou demais manifestações de arte.

Li por aí que Daniel Plainview é um monstro, um ser ardiloso, uma pessoa feita cega pela ambição. Não foi esse personagem que vi no filme. Essa figura achatada em que alguns críticos transformaram o protagonista está muito distante daquilo proporcionado pelo roteiro - e elevado por Daniel Day-Lewis a um patamar de humanidade com que poucos atores podem presentear os espectadores.

Se você não viu ainda, peço um favor: vá ver este filme no cinema. De forma alguma você poderá aproveitar em DVD a fotografia, o som e as atuações tão cretinas de tão boas do Day-Lewis e do Paul Dano.

Filmão.

[video]http://www.youtube.com/watch?v=ml2Ae2SIXac[/video]

Estou rindo até agora

February 24th, 2008

Não sei se essa propaganda é velha, mas é MUITO engraçada! Até agora não entendi o que ele diz no final.Ai, a decadência… [video]http://www.youtube.com/watch?v=YJRIWuVjEoU[/video]